Há uma linha na sua fatura de eletricidade que paga todos os meses, mesmo que não acenda uma única luz. Chama-se “potência contratada” e, em mais de 70% das casas portuguesas, está acima do que faz sentido.
Em escalões mais altos (6.9, 10.35 ou 13.8 kVA), o termo fixo pode pesar 15 € a 30 € por mês — entre 180 € e 360 € por ano. Sem ninguém ligar nada.
Vamos arrumar isto.
O que é mesmo a potência contratada
A potência contratada é o máximo de eletricidade que a sua casa pode receber em simultâneo. É medida em kVA e determina:
- Quantos eletrodomésticos pode usar ao mesmo tempo sem o disjuntor “ir abaixo”
- Quanto paga de termo fixo todos os meses, mesmo com consumo zero
Não confunda com o consumo (medido em kWh). A potência é uma “subscrição de capacidade”; o consumo é o que efetivamente usa.
Os escalões em Portugal
Os escalões mais comuns para uso doméstico são:
| Potência | Adequada para |
|---|---|
| 1.15 kVA | T0/T1, frigorífico + iluminação + pequenos eletrodomésticos |
| 3.45 kVA | T1/T2, sem aquecimento elétrico |
| 4.6 kVA | T2/T3, com termoacumulador moderado |
| 5.75 kVA | T3, vários eletrodomésticos em simultâneo |
| 6.9 kVA | T3/T4, com ar condicionado em várias divisões |
| 10.35 kVA | T4+, com carro elétrico ou aquecimento elétrico central |
| 13.8 kVA | Casas grandes ou pequenas atividades |
A maior parte das casas portuguesas — apartamentos T2/T3 sem aquecimento elétrico central — vive perfeitamente com 3.45 a 5.75 kVA. Mas instalou-se em 6.9 kVA “por segurança”. E paga essa segurança todos os meses.
Como descobrir a sua
Pegue na sua fatura mais recente. Procure no detalhe contratual:
- “Potência contratada: X kVA”
- “Termo fixo: X €/dia” ou “X €/mês”
Vai encontrar facilmente. Anote o valor.
Como saber se pode baixar (sem ficar às escuras)
O teste é simples e leva 5 minutos.
- Faça uma lista mental dos eletrodomésticos que liga em simultâneo com mais frequência: forno + placa + microondas + máquina de lavar + ar condicionado + termoacumulador, por exemplo.
- Some os consumos máximos (W) — vêm nas etiquetas energéticas e no manual.
- Divida por 1.000. Esse é o número aproximado de kVA que precisa no pico.
- Acrescente uma margem de 20–25% para segurança.
Se o seu pico real for 4 kVA e está em 6.9 kVA, está a pagar por 2.9 kVA de “ar” todos os meses.
Há também um teste mais empírico: durante uma semana, repare se o disjuntor geral alguma vez disparou. Se nunca dispara — e é raro disparar fora de situações extremas — está provavelmente com folga.
O risco percebido vs o risco real
A grande resistência a baixar é o medo de “ficar sem luz” se ligar tudo ao mesmo tempo. Na prática, o pior que acontece é o disjuntor disparar — e levantar-se para o ligar novamente.
Não há cortes prolongados, não há danos no quadro elétrico, não há facturas adicionais. É um inconveniente, não uma catástrofe. E se acontecer com regularidade, sobe de novo um escalão — também sem custo.
A possibilidade do disjuntor disparar tem-se de equilibrar com a certeza de pagar 15–30 € a mais por mês durante anos.
Como mudar (em 5 minutos, sem custo)
A alteração de potência é gratuita uma vez por ano:
- Aceda à área de cliente do seu comercializador (ou ligue ao apoio)
- Peça alteração para o escalão pretendido
- A E-Redes (operador da rede) confirma e altera no contador
- A alteração reflete-se no próximo ciclo de faturação
Em alguns casos, o contador é alterado fisicamente (visita do técnico, sem custo). Na maioria, é tudo eletrónico, à distância.
O efeito do solar e da bateria
Aqui está o detalhe interessante: com painéis solares e/ou bateria, quase toda a gente pode descer um escalão de potência.
Porquê? Porque o sistema solar absorve grande parte do pico de consumo diurno (forno + ar condicionado + lavandaria), e a bateria suaviza os picos noturnos. A rede passa a fornecer só o que sobra — tipicamente muito menos do que sem solar.
Uma família com 6.9 kVA contratada que instala painéis + bateria consegue, em quase todos os casos, descer para 5.75 ou 4.6 kVA. Mais uma poupança permanente que se soma à da produção solar.
A conta final
Se está em 6.9 kVA e baixa para 5.75 kVA, poupa aproximadamente 5–8 € por mês — entre 60 € e 100 € por ano, todos os anos, sem mexer no consumo.
Se está em 10.35 kVA e baixa para 6.9 kVA, falamos de 15–22 € por mês — entre 180 € e 260 € por ano.
Em ambos os casos, sem custo de mudança, sem risco material, sem alteração no dia a dia.
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