Em 2022, no pico da crise energética, o preço da eletricidade no mercado grossista (OMIE) chegou a passar dos 700 €/MWh em algumas horas. Quem estava em tarifa indexada nesse mês viu a fatura triplicar.
Em maio de 2024, o mesmo OMIE teve horas a custo zero ou negativo. Quem estava em tarifa indexada nesses dias pagou quase só os impostos.
A pergunta não é se tarifa indexada vale a pena. A pergunta é: vale a pena para si?
O que é mesmo uma tarifa indexada
Numa tarifa fixa tradicional, paga o mesmo preço por kWh durante a duração do contrato (tipicamente 1 ou 2 anos). O comercializador absorve o risco do mercado e cobra um prémio por isso.
Numa tarifa indexada, o preço por kWh que paga acompanha hora-a-hora o preço do mercado grossista OMIE, mais uma pequena margem do comercializador. O risco do mercado passa para si — em troca de tipicamente pagar menos quando o mercado está calmo.
É a diferença entre comprar fruta na loja com preço fixo e ir ao mercado abastecedor onde o preço varia todos os dias.
Os principais comercializadores indexados em Portugal
Em 2026, os indexados mais ativos são:
- Coopérnico Indexa — cooperativa, índice OMIE horário
- Iberdrola Indexa — indexada com app de gestão horária
- Repsol Activa — modelo híbrido com componente fixa
- Endesa Tempo Win — bandas horárias dinâmicas
- EDP Spot — entrada recente da incumbente no segmento
Cada um tem nuances no cálculo, mas o princípio é o mesmo: paga o preço do OMIE quando consome.
Quando ganha
A tarifa indexada compensa quando:
- A média anual do OMIE está baixa (anos de muito sol e vento)
- O seu consumo é flexível — pode mover lavandaria, termoacumulador, carga de carro elétrico para horas de OMIE baixo
- Acompanha o mercado — verifica o preço do dia seguinte (publicado às 20h pela OMIE) e ajusta
- Tem produção própria — painéis solares (mais sobre isto à frente)
Em 2024, famílias com perfis ajustáveis em tarifa indexada pouparam 15–25% face à fixa equivalente.
Quando perde
A tarifa indexada pode rebentar com a fatura quando:
- O OMIE tem picos prolongados (crise de gás, vagas de frio, baixa renovável)
- O seu consumo é rígido (não consegue mover cargas grandes)
- Não acompanha o mercado e consome em pontas
- O comercializador aplica margens elevadas que comem o ganho
Em 2022, famílias em indexada pagaram em média 40–80% mais do que as que estavam em fixa.
O perfil que mais beneficia
Em termos de comportamento, o cliente ideal de tarifa indexada é alguém que:
- Tem horários flexíveis (trabalha de casa, reformado, casa parcialmente vazia durante o dia)
- Está disposto a olhar para a app uma vez por dia
- Tolera variação na fatura mensal sem ansiedade
- Tem aquecimento e termoacumulador programáveis
Se a sua família tem três crianças, dois cães, máquina de loiça obrigatória às 19h e ar condicionado ligado das 18h às 23h em janeiro, não é o seu produto — pelo menos não sozinha.
O ingrediente que muda tudo: painéis solares
Aqui está o ponto que poucos comercializadores explicam: com painéis solares (e ainda mais com bateria), a tarifa indexada deixa de ser uma roleta e torna-se uma vantagem.
Porquê?
- O seu consumo da rede passa a ser maior à noite — exatamente quando o OMIE costuma estar mais barato (vento + barragens + procura baixa)
- Os picos de OMIE acontecem ao fim do dia, quando a sua produção solar diminui — mas com bateria, atravessa esse pico com energia armazenada
- A injeção do excedente é também valorizada ao preço OMIE — quando o mercado dispara, recebe mais pelo que injeta
Na prática, uma casa com painéis + bateria + tarifa indexada combina o melhor dos dois mundos: protege-se dos picos com produção própria, e aproveita os vales com consumo da rede.
A regra de bolso
- Sem painéis e com consumo rígido? Fique em tarifa fixa.
- Sem painéis mas com consumo flexível e tolerância a risco? Indexada pode compensar.
- Com painéis solares? Indexada é uma opção mais atrativa — vale a pena estudar.
- Com painéis + bateria? Indexada torna-se quase sempre a opção otimizada.
A tarifa indexada não é nem boa nem má em si. É uma ferramenta que combina muito bem com outras decisões — e muito mal com falta de informação.
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